A conta que ninguém vê: como a violência corrói as empresas brasileiras — e por que só a união entre poder público e setor privado pode mudar essa equação
A violência costuma ser tratada como um problema exclusivamente de segurança pública. Mas para quem empreende, ela é também uma variável de custo, de risco e de planejamento estratégico. Está no preço do frete, no seguro da frota, no sistema de câmeras, no seguro contra roubo de carga, na rotatividade de funcionários e até na decisão de abrir — ou não — uma filial em determinada região. Dados recentes mostram que essa conta está cada vez mais pesada, e que nenhum país resolve esse problema sozinho: nem o poder público, nem as empresas, isoladamente, têm escala suficiente para reverter o quadro.
A violência costuma ser tratada como um problema exclusivamente de segurança pública. Mas para quem empreende, ela é também uma variável de custo, de risco e de planejamento estratégico. Está no preço do frete, no seguro da frota, no sistema de câmeras, no seguro contra roubo de carga, na rotatividade de funcionários e até na decisão de abrir — ou não — uma filial em determinada região. Dados recentes mostram que essa conta está cada vez mais pesada, e que nenhum país resolve esse problema sozinho: nem o poder público, nem as empresas, isoladamente, têm escala suficiente para reverter o quadro.
Violência já é "Custo Brasil" para a indústria
Uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgada em junho de 2026 com a Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, entrevistou mais de mil executivos de empresas industriais de pequeno, médio e grande porte em todas as regiões do país. O resultado é contundente: a violência já eleva o chamado "Custo Brasil" para 81% dos empresários industriais. Entre os achados:
- 62% das empresas relatam aumento nos custos finais por causa de gastos com segurança no transporte de mercadorias;
- 45% afirmam que os investimentos em proteção patrimonial encarecem diretamente seus produtos;
- 32% dizem que a insegurança tem impacto elevado sobre a competitividade do negócio;
- 30% sofreram perdas financeiras diretas com fraudes ou sequestro de dados;
- 54% apontam o reforço do policiamento em áreas industriais como medida governamental prioritária, e 53% cobram mais segurança em rodovias e no transporte de cargas.
Ou seja: para 8 em cada 10 indústrias brasileiras, a insegurança não é um tema abstrato — é uma linha a mais na planilha de custos, que pressiona margens e, no fim da cadeia, encarece o produto para o consumidor.
O crime também afasta investimento e trava o crescimento
O efeito não fica restrito à conta de cada empresa. Pesquisadores do Fundo Monetário Internacional (FMI) demonstraram que o crime prejudica a acumulação de capital de um país, afastando investidores que temem roubo e violência, e reduz a produtividade da economia ao desviar recursos para investimentos defensivos — como segurança patrimonial — em vez de investimentos produtivos. Estimativas apontam que a violência e a criminalidade elevadas fazem o Brasil deixar de crescer cerca de 0,6 ponto percentual do PIB por ano. Em uma economia de mais de R$ 12 trilhões, isso representa dezenas de bilhões de reais em riqueza que simplesmente deixam de ser gerados.
O impacto também aparece na cibersegurança, cada vez mais integrada ao debate sobre violência patrimonial: levantamento da Kaspersky mostra que cerca de 6 em cada 10 empresas no Brasil sofreram ao menos um incidente de segurança nos últimos dois anos, sendo 58% desses ataques classificados como graves — com potencial de gerar perdas financeiras, danos à reputação e interrupção das operações.
Um mercado que cresce à sombra do medo
Enquanto a insegurança encarece a operação das empresas produtivas, ela também alimenta um mercado paralelo, cada vez maior: o da proteção privada. O Brasil já é um dos maiores mercados de videomonitoramento da América Latina, com câmeras presentes em elevadores, garagens, ruas, condomínios e comércios. No mercado imobiliário, a segurança se tornou um dos principais argumentos de venda, muitas vezes superando localização e infraestrutura de lazer. É um ciclo revelador: o mesmo problema que reduz a competitividade da economia como um todo sustenta, para alguns setores, um negócio bilionário — evidência de que o custo da violência não desaparece, apenas migra de lugar.
Por que a resposta não pode vir de um lado só
Diante desse cenário, cresce entre especialistas e organismos internacionais o consenso de que segurança deixou de ser um tema restrito às forças policiais. Os resultados mais consistentes surgem quando tecnologia, poder público, empresas e comunidade passam a atuar de forma integrada — não para substituir a polícia, mas para ampliar sua capacidade de antecipar riscos e agir com informação de qualidade.
Esse movimento já tem exemplos concretos em diferentes estados brasileiros:
- Programas de integração de câmeras privadas às centrais públicas de monitoramento já conectam milhares de equipamentos particulares — de comércios, condomínios e indústrias — às polícias estaduais, ampliando a capacidade de resposta sem exigir novo investimento público em equipamentos.
- Municípios têm criado leis de incentivo fiscal (como isenção ou redução de ISS) para empresas que financiem ou implementem projetos de segurança de uso coletivo — câmeras inteligentes, iluminação pública eficiente, sistemas de alarme —, formalizando a parceria por meio de Parcerias Público-Privadas (PPPs) ou termos de colaboração, com cláusulas de desempenho e prazo determinado.
- O modelo de PPP, previsto na Lei nº 11.079/2004, também avança em outras frentes de segurança pública, da gestão de unidades penitenciárias ao monitoramento inteligente de território, combinando a capacidade de regulação do Estado com a expertise técnica e a agilidade operacional do setor privado.
Esse tipo de arranjo tende a gerar benefícios nas duas pontas: para o poder público, mais capacidade de monitoramento e resposta com menor custo direto de investimento em equipamento; para as empresas, redução de risco patrimonial, atração de investimento e — no caso das PPPs com incentivo fiscal — retorno via dedução tributária.
O caso do Amapá: um alerta sobre prioridades orçamentárias
O desequilíbrio entre o gasto reativo com segurança e o investimento em áreas estruturantes aparece de forma acentuada no Amapá. Um levantamento sobre o orçamento dos estados brasileiros mostrou que, no Amapá, os gastos com segurança pública superaram em 246 vezes os recursos destinados ao meio ambiente — e, em outra métrica, a relação entre gasto com segurança e com ciência e tecnologia chegou a 91 para 1 em 2025, em um estado que tem a bioeconomia como prioridade declarada de governo. Ainda assim, a violência permanece persistente em Macapá e nas regiões de fronteira, mesmo com verbas específicas destinadas a essas áreas — sinal de que o problema não é apenas de volume de recursos, mas também de modelo de gestão e de articulação entre os atores envolvidos.
Para especialistas em economia da segurança pública, tratar o crime organizado sob uma ótica econômica — como "negócios" que respondem a incentivos, riscos e retornos — é o caminho para políticas mais eficazes do que o simples aumento linear de gastos policiais. A concentração excessiva de recursos em segurança, em detrimento de áreas como educação, ciência, tecnologia e meio ambiente, tende a perpetuar o ciclo entre violência, falta de oportunidades econômicas e pobreza, em vez de rompê-lo.
O caminho: colaboração como estratégia, não como discurso
Os dados deixam clara uma conclusão: a violência é hoje um problema de dupla mão. Prejudica diretamente a vida das pessoas e, ao mesmo tempo, corrói a competitividade das empresas, afasta investimentos e distorce a alocação de recursos públicos. Nenhuma dessas frentes se resolve isoladamente.
O setor privado tem tecnologia, capilaridade, agilidade de execução e um interesse econômico direto em ambientes mais seguros. O poder público tem a legitimidade, a capacidade de regulação, o poder de polícia e a visão sobre políticas de prevenção de longo prazo. Quando essas duas capacidades se conectam — por meio de PPPs, termos de colaboração, integração de câmeras e dados, ou incentivos fiscais bem desenhados — o resultado tende a ser mais eficiente do que a soma das partes agindo separadamente.
Transformar o custo da violência em um dado de gestão, e não apenas em uma estatística de jornal, é o primeiro passo para que gestores públicos e empresários passem a tratar a segurança colaborativa não como um gasto adicional, mas como um investimento com retorno mensurável — para o Estado, para as empresas e, sobretudo, para a população.
Fontes: Confederação Nacional da Indústria (CNI) / Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados (jun. 2026); Fundo Monetário Internacional (FMI); Kaspersky; Atlas da Violência 2025/2026 (Ipea/FBSP); FGV Ebape; levantamento de gastos públicos estaduais com segurança (The Conversation, 2026; Gazeta do Povo, 2025); Revista Segurança Eletrônica; Velho General — Parcerias Público-Privadas com incentivo fiscal via ISS; Rádio Itatiaia — PPPs em segurança pública.
Qual é a Sua Reação?
Curtir
0
Não Curtir
0
Amei
0
Engraçado
0
Bravo
0
Triste
0
Uau
0













